Autor: José Adão Ribeiro
Santa Rita do Sapucaí, 08 de julho de 2026
Quando falamos das fazendas de Santa Rita do Sapucaí, falamos da base que deu forma à nossa terra — e de um capítulo que por muito tempo ficou nas sombras. No século XIX, quando o café — esse nosso “ouro verde” — se espalhou pelas encostas e vales do município, dezenas de propriedades se tornaram o coração econômico da região: as terras das famílias Moreira da Costa, Fonseca, Ribeiro e outras pioneiras, espalhadas às margens do Rio Sapucaí, do Ribeirão do Mosquito, do Ribeirão do Vintém e nas entradas da Serra da Mantiqueira.
Ali, nas grandes lavouras e nas roças menores, toda a riqueza brotou graças ao trabalho forçado de milhares de homens, mulheres e crianças negras, trazidos à força de suas terras. Eram eles que derrubavam a mata virgem, preparavam a terra roxa, plantavam cada muda, capinavam sem descanso, colhiam os grãos com o sol a pino, secavam nos terreiros e enchiam sacos de dezenas de quilos — que depois carregavam léguas afora, até os pontos de parada dos tropeiros e as primeiras estações da Estrada de Ferro. Nas senzalas, separadas das casas grandes, viviam sob regras duras, sem salário, sem direito ao próprio nome, sem garantia de permanecer ao lado da família. Além do café, construíram as pontes, as estradas, as tulhas, ajudaram a erguer edificações que ainda existem — e cultivavam milho, mandioca e feijão que alimentavam todos na fazenda, mas que raramente lhes chegavam com fartura.
As fazendas mais extensas pertenciam ao Coronel Francisco Moreira da Costa e a Sinhá Moreira — terras que hoje correspondem a bairros, áreas rurais e até instituições importantes da cidade —, mas todas, sem exceção, sustentavam‑se sobre o suor e a resistência dessas pessoas. Muitos nomes, histórias e laços familiares ficaram guardados só na memória oral, pois os registros oficiais por muito tempo só mencionaram os donos das terras e o lucro do café, apagando quem realmente fez tudo florescer.
Após a Abolição em 1888, essas mesmas pessoas e seus descendentes permaneceram nas redondezas das fazendas — como meeiros, parceiros ou diaristas — mas sem receber um pedaço da terra que trabalharam a vida toda, nem reconhecimento por tudo o que construíram. Hoje, quando passamos por essas áreas, vemos ruas, edifícios e lavouras que seguem mudando, mas não podemos esquecer: cada fazenda, cada saco de café, cada passo do progresso inicial de Santa Rita do Sapucaí levou a marca indelével das mãos dos negros que carregaram o ouro verde — e que nunca tiveram seu lugar garantido na história que se conta.
Honrar essas fazendas é, antes de tudo, honrar quem lhes deu vida: é lembrar que a terra não pertence apenas a quem a escreveu nos livros, mas a todos que com ela sofreram, trabalharam e a fizeram crescer.