Autor: José Adão Ribeiro
Esse sofrimento não é página virada, não é história de outro tempo:
começou com a travessia forçada, no porão dos navios negreiros,
seguiu na chibata, no banco do suplício, na perneira e na máscara do jejum,
e permanece, de forma renovada, até os dias de hoje.
Não foi só dor no corpo: foi tentativa de matar a identidade,
proibir a língua, apagar os antepassados, negar a própria humanidade.
Racionalizar essa realidade é não confundir “reclamação” com verdade:
o que se pede não é privilégio — é reconhecimento, reparação e igualdade real.
Dói ainda ser visto com desconfiança antes mesmo de abrir a boca,
ver barreiras no estudo, no trabalho, na saúde, na justiça,
ouvir a própria cultura reduzida a “folclore” enquanto moldou este país inteiro.
Dói saber que a raiz de tantas desigualdades vem diretamente da escravidão,
e que ainda se usa o disfarce da “meritocracia pura” para ignorar esse peso.
Mas esse sofrimento nunca foi sinônimo de derrota:
dele nasceu a capoeira, o congado, o samba, a força dos quilombos,
a sabedoria que reinventou o viver onde tudo parecia perdido.
“Evoluir sempre, retroceder jamais” significa encarar a dor de frente:
não para perpetuá‑la, mas para que ela deixe de ser repetida.
Entender esse sofrimento é condição essencial para fazer justiça:
porque não se cura uma ferida se fingimos que ela não existe.
A dignidade não pode ser um prêmio a ser conquistado com o dobro do esforço:
ela é direito de todo afro‑brasileiro, como de todo ser humano,
e só terá fim quando o respeito e a equidade forem, de fato, para todos.
12 de julho de 2026 ✍️