Autor: José Adão Ribeiro
Conhecida também como máscara de flandres ou mordaça de ferro,
foi o instrumento cruel que impôs o jejum forçado e o silêncio .
Fechava a boca por completo, deixava só nariz e olhos livres,
trancada com cadeado que só o senhor ou o feitor podia abrir .
Servia para impedir que provassem alimento, bebida ou terra,
que sussurrassem entre si ou contassem a sua dor em voz alta .
Diziam que era punição por “roubar” o que lhes pertencia por direito,
ou por buscar na terra o que o trabalho e a fome negavam .
Mas racionalizar essa memória é ver: o jejum não era penitência,
era violência calculada para quebrar a resistência e reduzir a gente a coisa.
O metal frio roçou lábios, feriu gengivas, marcou para sempre,
mas nunca conseguiu aprisionar a fome de liberdade que levavam no peito.
Hoje não vemos mais essa peça de chapa e ferrugem exposta ao rosto,
mas persistem as formas modernas de negar o pão e a palavra:
quando se fecha o acesso à alimentação digna, ao estudo, à terra,
quando se silencia quem conta a história ou reivindica o que é seu.
Lembrar da máscara do jejum é honrar quem a suportou sem dobrar a cerviz,
como a Escrava Anastácia e tantos outros sem nome que resistiram.
“Evoluir sempre, retroceder jamais” significa romper toda mordaça:
ninguém tem o direito de dizer ao outro o que pode comer, falar ou ser.
O ferro enferruja, a fome injusta não pode ser eterna:
a verdadeira nutrição vem da justiça, da voz livre e da dignidade restaurada .
12 de julho de 2026 ✍️