GARGALHEIRA DA ESCRAVATURA
Autor: José Adão Ribeiro
Há risadas que não são alegria: são gargalheiras da escravatura,
ecoam onde deveria haver silêncio de vergonha ou grito de revolta.
Muitas vezes elas vêm de quem se aproveita do sofrimento alheio,
zombando da condição de quem foi privado de liberdade, de nome e de terra.
Outras vezes são o riso amargo de quem aprendeu a disfarçar a dor,
fingindo leveza para não aprofundar a violência que sofre todo dia.
Elas mascaram a crueldade como se fosse brincadeira,
normalizam a dominação e fazem parecer que o cativeiro é coisa natural.
Racionalizar é enxergar por trás desse som:
não há graça em ver alguém reduzido, explorado ou tratado como mercadoria.
Essas gargalheiras são ruído que tenta abafar a história,
esconder a ferida que não cicatriza e manter as correntes bem firmes.
Elas percorrem o tempo: ecoam no passado da senzala,
na porta da casa grande, na beira do caminho onde se arrastou o cansaço.
Hoje soam de forma diferente: não mais acompanhadas de chibata,
mas de piadas preconceituosas, de desdém, de “brincadeiras” que ferem a alma.
Tentam rir de quem luta por espaço, por reconhecimento, por igualdade,
como se reivindicar o próprio valor fosse motivo de zombaria.
Mas esse riso não tem força real: só dura enquanto a verdade se cala,
e quando a voz da história se faz ouvir, ele perde todo o sentido e cai por terra.
“Evoluir sempre, retroceder jamais” significa silenciar esse som:
não rir do que dói, não transformar injustiça em diversão, não repetir o erro antigo.
O riso verdadeiro aproxima, acolhe, celebra a vida e a diferença;
a gargalheira da escravatura separa, humilha e perpetua a dívida que não quitamos.
Deixemos que esse som se apague para sempre da nossa memória e da nossa fala,
e que em seu lugar ressoe o riso livre, justo e igual de quem finalmente é dono de si.
12 de julho de 2026 ✍️
JOSÉ ADÃO (Simples Realista)
Enviado por JOSÉ ADÃO (Simples Realista) em 12/07/2026