Autor: José Adão Ribeiro
O que passou não some: fica gravado no sangue, na memória e no caminho,
como reflexo que se espalha de geração em geração.
A dor da travessia, o peso da senzala, o silêncio forçado,
a tentativa de apagar raízes, língua e dignidade —
tudo isso deixou marcas que ainda se veem hoje,
mas deixou também uma luz que ninguém conseguiu apagar.
Racionalizar essa herança é não reduzir‑la só a sofrimento:
os reflexos são dois, e caminham lado a lado.
Há o reflexo da desigualdade que persiste:
dificuldade de acesso, preconceito que ainda corta,
a necessidade de provar valor duas vezes mais,
como se a história já não bastasse como credencial.
Mas há, sobretudo, o reflexo da resistência:
a força de quem reinventou fé, cultura, sabedoria e sobrevivência,
quem manteve viva a oralidade, os ritmos, os rituais,
quem transformou o que quiseram destruir em beleza e identidade.
Nós somos o espelho daqueles que não dobraram a cerviz:
herdamos a luta, mas também herdamos o direito de brilhar.
“Evoluir sempre, retroceder jamais” significa reconhecer esses reflexos:
não para ficar preso ao que feriu, mas para corrigir o que ainda está torto.
Entender que as dificuldades de hoje não são falhas nossas —
são ecos de um passado injusto que ainda não reparado.
E entender que a nossa presença, a nossa voz, o nosso orgulho,
são a resposta mais forte a quem quis nos fazer desaparecer.
Os reflexos não são sentença: são lição e compromisso.
Honrar os antepassados é transformar esses traços:
que o peso da opressão se esvaneça, e que só permaneça
o brilho da liberdade, da igualdade e da dignidade restaurada
para todas as gerações que ainda hão de vir.
12 de julho de 2026 ✍️