O Sentir Em Poesias - José Adão Ribeiro.
O QUE SENTIMOS FORTALECE COM TR@NSPARÊNCI@ NOSSOS SENTIMENTOS VERDADEIROS José @ Ribeiro.
Textos

A VIGIADA

Autor: José Adão Ribeiro

 

Ela vivia vigiada. Não por olhos de fora, não por guardas nas portas, mas por um vigia que morava dentro dela mesma, e também por tantos outros que olhavam de fora, julgavam, apontavam, diziam o que ela devia ser, fazer, sentir. Desde cedo, aprenderam que ela tinha que ser assim, não podia ser assado, que cada passo era olhado, cada palavra medida, cada gesto comentado. E ela acabou acreditando: que a sua vida não era só dela, que cada escolha tinha que passar pelo crivo dos outros, que nunca podia ser inteiramente ela mesma.

 

O vigia interno era o mais forte. Ele lembrava cada erro, cada palavra que ouviu, cada vez que alguém disse que ela não servia, que não era capaz. Ele a vigiava noite e dia: “não fale isso”, “não vá ali”, “não sinta tanto”, “seja como eles querem”. E ela ia, seguia, obedecia, mas sentia que se perdia pouco a pouco. Que a sua verdade ficava escondida, que o seu brilho se apagava, que ela vivia uma vida que não era a sua, só para agradar, só para não ser notada de forma errada.

 

Fora, também havia olhos em todo lugar. Os que diziam ser amigos, os parentes, os que passavam na rua, os que ouviam falar dela. Todos pareciam saber mais sobre ela do que ela mesma. Todos tinham uma opinião, uma ordem, uma cobrança. Se ela sorria muito, era leviana. Se ficava calada, era orgulhosa. Se escolhia um caminho diferente, era ingrata. Se amava, era louca. E ela andava sempre com a cabeça baixa, com o coração apertado, com medo de dar um passo fora da linha que eles tinham desenhado para ela.

 

Até que um dia, ela parou. Parou de ouvir o vigia, parou de olhar para os olhos alheios, parou de perguntar o que os outros achavam. E olhou para si mesma, com a razão e com o coração que ela sempre teve, mas nunca deixou falar. E perguntou: “Quem é dona da minha vida? Quem sabe o que é melhor para mim? Quem vai viver os meus dias, no final das contas?” E a resposta veio clara, forte, sem medo: ela mesma.

 

Foi então que resolveu mudar. Não foi fácil, não foi de uma hora para outra. O vigia gritou, os olhos de fora se zangaram, disseram que ela estava errada, que ia se dar mal. Mas ela não ouviu mais. Começou a caminhar como ela queria, a falar o que sentia, a escolher o que fazia bem ao seu coração. Deixou de ser vigiada para ser livre. Deixou de viver para os outros para viver para si, com respeito, com verdade, com a cabeça erguida.

 

Hoje ela sabe: ser vigiada é nunca ser livre. É viver na sombra do que os outros querem. Mas quando a gente resolve ser dona de si, quando a gente deixa o medo e a cobrança de lado, a gente encontra a nossa verdade. E ela encontrou a dela. Hoje ela anda com a certeza de que a sua vida é sua, que as suas escolhas são suas, que ninguém tem o direito de vigiar o que só ela sabe no fundo da alma. E isso é a maior vitória que alguém pode ter.

 

JOSÉ ADÃO (Simples Realista)
Enviado por JOSÉ ADÃO (Simples Realista) em 02/08/2026
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