Autor: José Adão Ribeiro
Ele estava ali, parado no canto da parede, há anos. O espelho que eu sempre olhei, que me mostrou desde menino, que viu cada passo meu, cada sorriso, cada lágrima. Até que um dia, sem saber como, apareceu uma trinca. Uma linha fina, que cortou o reflexo ao meio, que pareceu separar o que eu era do que eu via. Olhei para ela e pensei: “agora está quebrado. Agora não serve mais. Agora não me mostra direito”.
E por muito tempo eu evitei olhar. Passava de lado, virava o rosto, não queria ver aquela marca ali, parecendo um defeito, parecendo uma falha, parecendo que algo tinha se perdido para sempre. Lembrei de tantas vezes que eu também me senti assim: trincado, quebrado, com marcas que pareciam me impedir de ser inteiro de novo. Lembrei dos erros, das dores, das quedas, de tudo o que fez uma rachadura no meu coração e na minha vida.
Dizem que espelho trincado traz azar, que não serve mais, que temos que jogar fora e pegar um novo. Mas eu não quis. Parei, olhei com calma, com a razão que eu sempre procuro ter, e vi: a trinca não apagou o reflexo. Ela só mudou o jeito de ver. Ainda estava eu ali, inteiro, por trás daquela linha. Ainda me via, ainda me reconhecia, ainda sabia quem eu era. A marca não era o fim: era só o sinal de que alguma coisa tinha passado, e eu tinha ficado ali.
E foi então que eu entendi: nós também somos assim. As nossas trincas, as nossas marcas, as nossas cicatrizes — elas não nos tornam menos valiosos. Elas mostram que nós resistimos, que nós passamos por tempestades e não nos despedaçamos, que nós continuamos aqui. O espelho não ficou pior: ficou mais nosso, com a nossa história gravada nele. E eu também: não fiquei pior, fiquei mais forte, mais sábio, mais verdadeiro.
Hoje eu olho para ele e não vejo defeito. Vejo história. Vejo que depois da trinca, o reflexo ainda brilha, ainda me mostra, ainda diz a verdade. Vejo que não é preciso ser perfeito para ser real. Que as rachaduras são só os lugares por onde a luz entra melhor. E eu aprendi a olhar para mim mesmo assim: com todas as minhas marcas, com todas as minhas linhas, com tudo o que vivi. Porque eu sou inteiro, mesmo com as trincas. E elas são parte de mim, não contra mim.
A trinca no espelho me ensinou isso: o que é verdadeiro não se perde com uma marca. O que somos permanece, mesmo quando as coisas mudam, mesmo quando aparecem linhas que antes não estavam lá. Hoje eu aceito o espelho, e eu aceito a mim mesmo. E sei que a luz brilha mais forte exatamente onde a linha passou.