Autor: José Adão Ribeiro
Dizem que a cidade e a roça são coisas diferentes. Que um é lugar de asfalto, de luz forte, de gente indo e vindo depressa. Que o outro é lugar de terra, de silêncio, de gente que vai devagar, seguindo o tempo do sol e da chuva. Mas eu que conheço os dois lados, que ando pelas ruas de Santa Rita e também pelas estradas que levam para o interior, eu sei: eles não são separados. Eles se encontram, se abraçam, e as tradições moram nos dois lugares, cada uma do seu jeito.
Na cidade, as tradições são outras: o encontro na praça, a festa na igreja, o sarau de cultura, o trabalho que faz a engrenagem andar. Mas olha bem: muita coisa que existe ali, veio da roça. O gosto pelo café forte, o jeito de receber bem quem chega, a fé nos santos, a música que toca no coração — tudo isso veio das terras de cima, das casas de barro, das mãos que plantavam e colhiam. A cidade cresceu, mas carrega na sua raiz o cheiro da terra.
E na roça, também chegam coisas da cidade. O conhecimento novo, o jeito de cuidar melhor do que se tem, a notícia que chega rápido, o jeito de se unir para fazer a coisa andar. Mas lá, as tradições não se perdem: o respeito à natureza, o trabalho com as mãos, a união da família, a festa que começa com a benção e termina com a partilha. A roça acolhe o que vem de fora, mas nunca esquece quem é.
As tradições urbanas e a ruralidade não brigam. Elas se completam. É como se fosse o mesmo rio: uma parte corre entre as pedras e as árvores, outra parte passa pelas casas e pelas pontes, mas é a mesma água, seguindo o mesmo caminho, levando a vida para todos. Não existe uma melhor que a outra: cada uma tem o seu valor, cada uma tem a sua história, cada uma ensina uma coisa bonita.
Hoje eu vejo isso aqui, na nossa terra. Vemos gente que mora na rua Treze de Maio, que trabalha na fábrica, mas que ainda sabe plantar um pé de couve no quintal, que ainda canta a moda de viola, que ainda lembra das histórias do avô que morava na fazenda. E vemos gente que mora na roça, que vem à cidade para vender o que colhe, para ver o amigo, para participar da festa, e leva de volta o que aprendeu, para fazer a sua terra ainda melhor.
E a lição que fica é essa: não importa se é cidade ou roça. O que vale é o que levamos no coração. O respeito, a gratidão, o amor às nossas raízes, o cuidado com o que é nosso. As tradições não têm endereço: elas moram onde nós estamos, e se renovam sempre, quando a gente sabe unir o que veio de antes com o que vem chegando de novo.