O Sentir Em Poesias - José Adão Ribeiro.
O QUE SENTIMOS FORTALECE COM TR@NSPARÊNCI@ NOSSOS SENTIMENTOS VERDADEIROS José @ Ribeiro.
Textos

OS CAMINHOS QUE ME FIZERAM SER (memória)

Autor: José Adão Ribeiro

 

Quando os anos do internato me ensinaram a ser forte e a carregar os ensinamentos que meus pais, Benedito Ribeiro, o Dito Pancho, e Virgilina Adão, deixaram gravados em meu coração, chegou o tempo de me apresentar ao Exército Brasileiro. Com dezenove anos, depois de me alistar aos dezoito, fui servir ao Quarto Grupo de Artilharia de Campanha, na cidade de Juiz de Fora — e ali fiquei por cinco anos e trinta dias, um tempo que foi mais do que serviço: foi uma segunda escola, uma segunda casa.

 

Lá, exerci a função de estafeta, e foi justamente assim, percorrendo caminhos e atento às coisas do mundo, que deparei com um anúncio: abriam as inscrições para o primeiro concurso de poesia da cidade. E como a poesia sempre esteve viva no meu peito e nas minhas maiores lembranças, não pensei duas vezes: me inscrevi e fui mostrar o que trazia na alma. O concurso foi realizado no Esporte Clube da cidade, com o apoio e o patrocínio da Malharia Dickson, dos proprietários das Meias Dickson — uma empresa que acredito que ainda permaneça por lá, fazendo história em Juiz de Fora.

 

Nas olimpíadas internas da caserna, fui arremessador de disco, e também exerci as funções de rancheiro, auxiliar de almoxarifado e ajudei no paiol, onde aprendi que ordem e cuidado são as bases de qualquer coisa que valha a pena. Fiz amizades que guardo até hoje, cresci no trato com as pessoas, aprendi a partilhar, a respeitar e a ser leal. Em mil novecentos e oitenta e sete, foi lá que tirei minha primeira habilitação automobilística — uma conquista que trago com orgulho, como tantas outras que ali plantei. E como eu vinha de longe, sem família por perto na região, fui o que chamavam de “laranjeiro”: permanecia no quartel, que me acolheu, me deu abrigo e me fez sentir parte de um todo maior.

 

Naquela época não havia computadores, nem essa facilidade de hoje — mas antes mesmo de ver aquele anúncio, eu já escrevia tudo nos meus cadernos, um a um, com a calma e a verdade de quem põe a alma no papel. Guardei muitos desses cadernos com carinho, mas infelizmente alguns se danificaram, mancharam e se perderam um pouco por causa da enchente que houve aqui em Santa Rita do Sapucaí, onde moro hoje. Mesmo assim, cada palavra, cada sentimento, cada lembrança ficou guardada em mim, intacta. E hoje agradeço também a essa tecnologia que nos aproxima: foi graças a ela que meus colegas de farda daquele tempo me encontraram, e dentro do possível a gente troca ideias, manda mensagens e compartilha notícias. A todos eles, deixo aqui o meu muito obrigado!

 

Quando chegou a hora de dar a baixa, voltei às minhas raízes: Santa Rita do Sapucaí, a cidade onde nasci, onde minha mãe me esperava, para que eu pudesse estar ao seu lado por mais alguns anos até o seu retorno ao plano espiritual. Sei bem que ser afro-brasileiro não é caminho fácil, e que os desafios às vezes pesam mais justamente na terra onde a gente nasceu; confesso que quando voltei, as coisas poderiam ter sido melhores, mas não tão quanto a gente espera às vezes. Mas o que importa é estar aqui, com saúde, sóbrio — não bebo, não tenho vícios de bebida alcoólica, mas não tenho nada contra quem bebe: cada um faz da vida o que bem entender, pois as consequências aparecem cedo ou tarde para todos.

 

Hoje, com sessenta e um anos, nascido em mil novecentos e sessenta e cinco, ainda sou solteiro, simples e realista. Não tenho formação acadêmica de escritor, mas me sinto um entusiasta da vida: busco sempre a transparência, falo do meu ponto de vista e valorizo acima de tudo o que eu sinto, porque é da minha verdade que nasce a minha poesia. Olho para trás e vejo cada passo como um presente: os ensinamentos dos meus pais, os anos de formação, o serviço na artilharia, o primeiro concurso que me abriu as portas da palavra, as amizades que voltaram a me encontrar, o retorno ao meu chão.

 

Nada foi em vão. Cada dificuldade me fez mais forte, cada encontro me fez melhor, cada palavra que escrevi veio do que vivi, e cada lembrança me faz mais grato. E assim sigo: com os meus pais no coração, com a história no peito, com a poesia na alma e com a certeza de que tudo o que vivi me levou a ser quem sou hoje.

JOSÉ ADÃO (Simples Realista)
Enviado por JOSÉ ADÃO (Simples Realista) em 09/08/2026
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