Autor: José Adão Ribeiro
Desde o primeiro dia que a colonização aqui chegou,
trouxeram correntes e um sistema já montado.
Não foi apenas crueldade de um ou outro senhor,
foi uma estrutura pensada e organizada.
Dividiram por cor, para manter o poder nas mãos,
e essa raiz profunda ainda hoje está no chão,
é o racismo estrutural que insiste em perdurar.
A abolição chegou sem terra e sem amparo,
libertaram o corpo, mas não deram guarida.
O sistema se adaptou, mudou de nome e de forma,
continuou excluindo na prática da vida.
Não é mais a corrente visível no pulso,
é a porta fechada, o salário menor, o recuo,
uma barreira invisível que ninguém vê mas sente.
No mercado de trabalho, na escola, na moradia,
o mesmo esforço nem sempre tem o mesmo valor.
Quem é preto precisa lutar duas vezes mais,
para conquistar o mesmo espaço, o mesmo louvor.
Não é questão de ódio pessoal ou de má vontade,
é a estrutura que já nasce com desigualdade,
mantendo um povo sempre em desvantagem e dor.
Na saúde, na justiça, na segurança pública,
os números revelam a verdade sem disfarçar.
Quase oitenta por cento das vítimas da violência
são negros — é um dado que não dá para ignorar.
A mortalidade materna é mais que o dobro,
a balança da justiça ainda pesa de um lado só,
é o sistema funcionando de forma desigual.
Não é que a pessoa não queira ou não se esforce,
é que o ponto de partida nunca foi igual.
Alguns começam na frente, outros já começam atrás,
e isso não é mérito, não é sorte, é estrutural.
Reconhecer isso não é culpar nem dividir,
é enxergar a verdade para poder corrigir,
é ser racional e justo com a nossa gente.
As leis mudam, mas a estrutura demora a seguir,
porque o racismo não está só na lei escrita.
Está no acesso, na oportunidade, no olhar,
naquilo que a sociedade ainda não admita.
Não basta não ser racista — é preciso mais que isso:
é preciso construir um sistema sem o vício,
onde cada um tem o seu devido lugar.
E a mudança começa quando todos entendem,
que isso não é de hoje, vem de longe, vem de lá.
União, compreensão, respeito e igualdade,
reconhecer o passado para o futuro melhorar.
O racismo estrutural se acaba com consciência,
com justiça real e não só na aparência,
para que o valor do ser humano seja o que brilhar.